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Ajudar é uma forma de se relacionar com o mundo

Normalmente, ajudar alguém é algo assim: vemos a necessidade, então vamos lá e ajudamos. Algo pontual, momentâneo. E o episódio se encerra.

Mas, em muitas situações, o que permanece não é o ato em si, mas uma relação que se estabelece a partir dele.

Por isso normalmente nem percebemos, mas ajudar pode não ser apenas algo que fazemos, mas uma forma de iniciar novos e bons relacionamentos.

“Um ser humano é um ser humano apenas se através de outros seres humanos.” 

(“A human being is a human being through other human beings.”) [1]

A ideia de que o ser humano somente existe em relação com outros aparece de forma explícita na filosofia africana do ubuntu. Nesse contexto, a identidade não é algo isolado, mas construída no encontro com o outro.

Se isso é levado a sério, ajudar deixa de ser um evento ocasional e passa a ser uma expressão dessa própria condição existencial.

No entanto, no cotidiano moderno, a ajuda costuma aparecer de forma fragmentada. Costumam ser alguns pequenos gestos, muitas vezes desconectados entre si, sem continuidade clara. Há intenção, há momentos de ação, mas nem sempre há um padrão.

Essa fragmentação costuma estar ligada ao comportamento social agitado que vivemos. Acreditamos que haja essa separação entre indivíduo e coletivo, entre humano e natureza, como se fosse uma interrupção na rotina, não parte dela.

Em algumas tradições indígenas, essa separação sequer faz sentido. A relação com o outro — humano ou não — é parte contínua da existência.

Essa ideia de interdependência também aparece em narrativas como as descritas por Davi Kopenawa, onde o equilíbrio da vida depende de relações que vão além do humano — envolvendo natureza, espíritos e coletividade.

Ainda que essa linguagem não seja comum no contexto urbano moderno, ela aponta para algo recorrente: a noção de que viver implica participar de uma rede de relações.

“O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças.” [2]

Em tradições afro-brasileiras, como nos sistemas simbólicos ligados aos orixás, a lógica de troca também é central [4]. Dar e receber não são movimentos isolados, mas parte de um fluxo contínuo que sustenta relações — entre pessoas, entre comunidades e entre dimensões simbólicas.

“Uma pequena parte do que se recebe é para si, mas o restante é para os outros.” [1]

Quando a ajuda é vista apenas como ato, ela tende a depender de circunstâncias: alguém pede, alguém oferece, e o ciclo se fecha. Mas quando ela passa a ser entendida como relação, algo muda.

Ela deixa de depender apenas de situações específicas e passa a influenciar a forma como percebemos o outro — e como nos posicionamos diante dele.

“O próximo, afinal, seja onde for, será sempre a criatura que te busca onde estás procurando por ti o socorro da paz.” [3]

Isso não significa que toda interação se transforma em ajuda, nem que a vida se torna um esforço contínuo de ação. Mas sugere que a disponibilidade para o outro pode deixar de ser uma exceção e passar a ser um padrão possível.

Um dos efeitos disso é a mudança na própria pergunta.

Em vez de “quando devo ajudar?”, ela passa a ser algo mais próximo de:
“como estou me relacionando com o outro no dia a dia?”

No fim, a diferença pode ser sutil, mas relevante: ajudar de ser apenas um ato e passa a ser uma forma de relação contínua, menos dependente de momentos específicos.

Essa transição — de atos isolados para uma forma mais contínua de relação — nem sempre acontece de forma espontânea. Muitas vezes, existe intenção, mas falta estrutura para sustentar isso ao longo do tempo.

Uma das propostas do ICAM é a de organizar essa continuidade, ajudando a transformar ações pontuais em algo mais consistente. Uma das formas disso é na construção de um projeto pessoal de caridade, que em breve vamos apresentar com mais detalhes.

Não como uma obrigação, mas como uma forma possível de tornar esse tipo de relação mais clara e sustentável dentro da realidade de cada pessoa.

Referências

[1] RAMOSE, Mogobe B. African Philosophy through Ubuntu. Harare: Mond Books, 1999.

[2] KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

[3] XAVIER, Francisco Cândido (psicografia). DIVERSOS ESPÍRITOS. Antologia da Caridade. São Paulo: FEB, 1994.

[4] VERGER, Pierre. Notas sobre o culto aos orixás e voduns. Salvador: Corrupio, 1981.